Too Long; Didn’t Read:
Porra nenhuma, eu tinha oito anos de idade e nem sabia o que era level design. Mas hoje, aos trinta, consigo entender que não é preciso muito mais do que um quadrado com blocos bem posicionados para que uma fase seja divertida.
Whole Read:
Super Bomberman 5 era um dos jogos favoritos da minha mãe. Apesar de jogar todos os 5 jogos da série Super, o 5 foi o que eu mais vi ela jogando. Jogávamos juntos: ela passava as fases, eu enfrentava os chefões — eu só tinha um controle. Minha mãe era bastante casual, seria uma tremenda viciada em Candy Crush se tivesse tido a oportunidade de possuir um smartphone.
Minha mãe era uma jogadora de videogames improvável, não era possível dizer se ela jogava ou não apenas olhando-a. Mas ela foi, pelos primeiros doze anos da minha vida, a dona de um fliperama — eu, inclusive, tirei muita ficha dos clientes dela no KoF 98, mas isso é história para outro texto.
Além dos fliperamas, ela tinha dois videogames também: um Playstation 1 e um Super Nintendo — ironicamente, nunca jogamos Bomberman no SNES, mas sim em um emulador de SNES pra PS2 (!!!), que apareceu depois que o fliperama fechou. E mesmo sendo bastante casual, a coroa até que tinha um gosto ligeiramente apurado para jogos.
Minha mãe gostava bastante dos clássicos: Super Mario, Sonic, Top Gear, Felix The Cat e até Resident Evil. Quando o fliperama fechou e eu consegui mostrar para ela o mundo dos emuladores, por algum motivo, imaginei que fosse conseguir expandir bastante os horizontes dela. A verdade é que ela adicionou apenas dois jogos ao seu leque: Super Adventure Island e Addams Family, de NES — além de suas respectivas versões de SNES. Mas dentre os jogos que ela gostava, tinha um que ela sempre retornava: Bomberman.
O Super Bomberman 5 foi um dos jogos que eu mais vi ela jogando. Mas também, tinha umas mecânicas bem bacanas. Aquela sensação de esperar os portais aparecerem e não ter certeza de quais opções viriam era bastante prazeroso ao rejogar o joguinho. O jogo também tinha uns power-ups legais, e o ponto alto eram as montarias. Minhas preferidas sempre foram os Louie Roxo e Rosa (o mágico e o pula-pula). Minha mãe gostava bastante do Verde, o gordinho que saia rolando.
Quando eu tinha oito anos, eu achava que minha mãe jogava aquilo porque achava tudo isso que eu falei acima surpreendente, mas alguns anos depois eu notei algumas coisas:
- Dos power ups, ela só usava três, mesmo que pegasse os outros: a bomba extra, o foguinho e o carrinho — mas só dois carrinhos, mais do que isso ela reclamava que ficava muito rápido e ela perdia o controle.
- Ela só se importava com o Louie Verde Gordinho.
- Quando pegava a bomba de controle remoto — que a gente chamava de bomba relógio por algum motivo desconhecido —, ela escolhia perder uma vida para voltar a ter a bomba normal.
- Ela não enfrentava nenhum chefe. Nenhum, nem mesmo o Ratinho, o primeiro deles (muito tempo depois eu descobri que era um cachorro, mas Ratinho já tinha pegado).
- E o que mais me chamou a atenção: quando, por algum motivo, a fase se tornava escalafobética, ela ficava realmente frustrada. Incontáveis foram as vezes que ela simplesmente parou de jogar porque a jogatina acabou se tornando mais complicada do que o esperado.
Foi quando eu me dei conta desse último que eu entendi porque a minha mãe gostava tanto daquele jogo: as fases eram, em sua grande maioria, previsíveis. Não havia muito para ser feito além de abrir caminho e andar em quatro direções. E quando o objetivo principal se desviava levemente, a diversão acabava.
Minha mãe se divertia com pouco? De fato, não precisava de muito para que ela ficasse jogando ali por três, quatro, cinco horas quando começava — sempre com sua cerveja do lado. Mas, sendo uma jogadora casual, ela não sentava na frente da televisão ou do computador buscando uma super aventura ou desafios espalhafatosos. Ela queria apenas apertar uns botões e ver umas coisas explodindo depois de um dia cansativo. E tá tudo bem. No fim das contas, é a isso que se resumem os videogames: apertar botões e ver coisas explodindo, sejam elas blocos, robôs ou até mesmo pessoas (alô, GTA).
Quando eu comecei a descobrir que as coisas que eu gostava nos jogos tinham nome — upar skill virou sistema de progressão, pulos diferentes virou mecânica de gameplay e fase legal virou level design —, entendi que esses nomes serviam só para nós, desenvolvedores, com nossa eterna mania de catalogar coisas dentro de uma caixinha. Para quem joga, só importa se as skills upadas servem pra algo, se o pulo alcança aquela estrela perdida ali em cima e se a fase não é um antro de armadilhas idiotas. Não é preciso muito mais do que um quadrado com blocos bem posicionados para que uma fase seja divertida
Dito isso, eu tenho certeza que se Bomberman tivesse nascido trinta anos mais tarde, teria sido um battle royale doentio com microtransações e efeitos especiais inspirados em filmes do Michael Bay — aliás, taí outra coisa que os Bomberman já tinham de bastante divertido: battle royale.
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